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Poeta, pedadogo e publicista, João de Barros formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Em 1920, foi eleito sócio da Academia Brasileira de Letras e, em 1925, sobraçou a pasta dos Negócios Estrangeiros. Entusiasta da aproximação luso-brasileira, dirigiu, com João do Rio, a revista Atlântida (1915-1920), que incluiu colaboração dos principais escritores da geração de 1910-20. Em 1945, foi agraciado com a Grã-Cruz do Cruzeiro do Sul, tendo dedicado os seus últimos anos de vida à adaptação para a juventude de alguns dos mais famosos textos clássicos.
SONETO DE AMOR
Tantos passaram pelo teu caminho Antes que fosse a hora de eu passar Que tenho a dor de me não ver sozinho Na memória fiel do teu olhar.
Nenhum te disse frases de carinho, Nenhum parou, talvez, para te amar... E vão perdidos no redemoinho Da Vida e nunca mais hão-de voltar.
Para ti, nenhum foi o mesmo que eu... -- Mas porque a tua vista os abrangeu Mesmo sem alegria, amor ou fé,
Deles alguma cousa em ti existe -- Alguma cousa que me deixa triste Porque não posso adivinhar o que é!...
. AMAR OU ODIAR
Amar ou odiar Ou tudo ou nada O meio termo é que não pode ser A alma tem de estar sobressaltada Para o nosso barro sentir; viver Não é uma Cruz que não se queira pesada Metade de um prazer, não é um prazer! E quem quiser a vida sossegada Fuja da vida e deixe-se morrer! Vive-se tanto mais quanto se sente Todo o valor está no que sofremos Amemos muito como odiamos já! A verdade está sempre nos extremos Pois é no sentimento que ela está.
AQUELE MAR
Aquele mar da minha infância, bom camarada e meu irmão a sua voz, o seu olor, sua fragrância tanto os ouvi e respirei que trago em mim o seu largo ritmo, seu ritmo forte, como se as praias onde espuma quase me fossem praias sem fim dentro de mim ocultas praias, largas praias do tumultuoso coração… Aquele mar meu confidente de horas idas tudo escutava e adivinhava do meu pueril e ingénuo anseio. Nada sonhei que o não dissesse – frémito de alma, grito ou prece –, às madrugadas e aos poentes, ao sol, às nuvens, ao luar, ora nascendo, ora morrendo nos longos, longos horizontes em que se perdia o meu olhar… Aquele mar na calma azul, no temporal, nunca mentia: era um só beijo, hálito puro, largo harpejo que me entendia e respondia no seu inquieto marulhar… Moço e menino, solitário, rochas, falésias, areais eu coroava-os de alegria nos meus passeios matinais. Ou nalgum barco pescador, velas abrindo a todo o pano, do oceano então era senhor, largava a escota, navegava, no vão desejo de aventuras, que não chegava a realizar… Mas era meu, e eu pertencia-lhe, àquele mar, era seu filho, escravo e dono, sorria à sua Primavera, amava a luz do seu Outono, o vivo lume dos estios a violência dos Invernos longos clamores de temporais. Aflito voo das gaivotas junto das negras penedias, também como ele me perdias, nas tardes tristes e sombrias, a bruma gélida das noites… E a eternidade então ouvia humano sonho sempre esquecido na eterna voz que fala o mar.
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Jun 20, 2008
5:00 AM
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