
Ontem, pela madrugada, aconteceu caso ins?lito na nossa pacata Lisboa que pode, providencialmente, vir a ser a salva??o da Na??o. O guarda Abel dos Santos Silva Fajardo, homem de vera ?ndole crist?, espelho imaculado da moral, profissional zeloso, pai respons?vel, marido amoroso, trope?ou, literalmente, num indiv?duo suspeito portador de v?rios bilhetes de identidade e de uma "Mensagem". Segundo nos contou o Senhor Magalh?es, dono de uma das tabernas de ginja sitas nas Portas de Santo Ant?o, "o guarda Abel j? tinha tido a conta dele. Pedi-lhe, educadamente, que a minha m?e, Deus a tenha, soube-me educar, que se pusesse na alheta que no dia seguinte est?vamos abertos. Ora, o guarda Abel, depois de insistir que era a autoridade e que manteria a taberna aberta o tempo que lhe aprouvesse, farejou algo no ar e disse que pod?amos fechar pois j? tinha o sentido num outro lado - disse que aquele odor de baga?o caseiro batia a ?gua de col?nia dos dias de domingo" Contam testemunhas ocolares que o guarda Abel sa?u disparado em direc??o ao Rossio como se n?o houvesse amanh?. Sempre com o olfacto alerta, seguiu o rastroat? ? esquina da Pra?a do Rossio com a Travessa da Betesga. A?, chocou contra um sujeito visivelmente alcoolizado. Num ?pice, o representante da ordem mobilizou o dito indiv?duo e revistou de cima a baixo. " Este que tenho aqui pontiagudo e vermelho n?o me engana. Cheiro o crime a milhas. N?o encontrei o que procurava, mas achei melhor: o homem trazia consigo cinco bilhetes de identidade e uma certa "Mensagem"!? Quando o encarei com uns olhos furibundos ele, visto que estava encalacrado, come?ou a inventar um chorrilho de desculpas. Primeiro disse que era m?dico e que se chamava Ricardo Reis. Depois titubeou e j? era um tal de ?lvaro Campos, engenheiro. Depois, imagine-se, um homem daqueles, com boa gabardine e fato aprumado, a tentar convencer-me que era guardador de rebanhos e que mal tinha a instruc??o prim?ria!? Isto ? cada doido!? " referiu o guarda Abel. Conduzido ? esquadra para averigua??es veio-se a descobrir que o indiv?duo em causa d? pelo nome de Fernando Pessoa e trabalha como correspondente estrangeiro num escrit?rio da Baixa. Al?m das referidas identidades falsas o sujeito trazia consigo um manuscrito criptogr?fico "de dif?cil interpreta??o - nota-se que ? profissional - e sem d?vida recheada de informa??es confidenciais sobre o nosso pa?s para algumas das nossas rivais pot?ncias estrangeiras" como nos explicou o comiss?rio Mendes, ao mesmo tempo que negou "que as mazelas f?sicas do tal Pessoa tem a ver com uma queda pelas escadas abaixo e nega veementemente as acusa??es de confiss?o for?ada." O dito Pessoa ser? amanh? presente ao ju?z para responder ?s acusa??es e explicar o conte?do da tal "Mensagem". ? mesma hora e noutro local o guarda Abel ser? condecorado e promovido a investigador. A nossa reportagem sabe de fonte segura que o guarda Abel meteu requerimento para ir para o departamento de contrafac??o de bebidas espirituosas. Este humilde rep?rter sa?da-o e deseja-lhe as maiores felicidades nesta nova actividade para que se acabe de uma vez por todas com um tipo de com?rcio que s? lesa o nosso Portugal.
CCH