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Uma palavra devolve-me o tempo exacto. Nela me instalo. E sou feliz ou infeliz. Mas à minha maneira.Posso tapar os olhos para não a ver, os ouvidos para não ouvi-la; cerrar a boca para não pronunciá-la. Não adianta. A palavra irrompe. A palavra irromperá quer queiramos ou não. Porque a palavra é um símbolo. Com ela se desenham a liberdade e as algemas; com ela se estabelece a guerra e inaugura a paz.A palavra é suavidade, loucura, são folhas e folhas esboçando um tempo a vir.É uma janela aberta, uma lágrima incontida.Partem velozes as palavras, quando se libertam. Crescem como sons e repercutem-se quando encontram o campo desejado.A palavra é uma alta cidade que nasce às cegas, sobressaltada ou intolerante. Ou intolerável.Peça de um maravilhoso ofício, pode ser um grito doloroso, uma estrela desintegrada, um punhal acerado.A palavra fere, humilha, repõe, exalta, congrega, unifica, destroi. Nela respiramos e dela se alimentam os seres mais tristes ou mais perturbados.Ela é oficinal trabalho do poeta, o infinito para que convergem os seus dias. Quando o impedem de procurá-la, matam-no em silêncio. Quase sem reparar. Mas matam-no, porque na palavra se confunde ou se alimenta o operário dos símbolos. Mal se lhe toca e logo a palavra o envolve e com ela faz um corpo místico de luz e destino.A palavra é o drama. A luz. A angustia em tinta apressada.Por ela se desce aos infernos, com ela se exalta e se humilha.É preciso olhar bem a força da palavra, Vê-la por dentro. Descobrir-lhe a luz e ainda e sempre a outra face que esconde.Todavia, apesar de toda esta luz em que quase não reparamos, uma palavra não vem.Procura-se e não vem.Espera-se há muito e não há quem a escreva. Ou quem a leia. Ou quem a diga.Procura-se uma palavra.Uma palavra que destrua a solidão; que inaugure os gestos simples, os sorrisos claros, que espalhe entre os homens a esperança e a paz.Procura-se uma palavra.É pequeninaÉ branca.É um sorriso voltado para o ódio.Uma pomba voltada para o amor.Procura-se uma palavra. Tão breve que se confunde com um beijo que se dá sem saber porquê. Ou uma lágrima. Ou uma flor.
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