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Porque me roem as térmitas os dedos
Respiro escrita pelos dedos. Tenho as palavras nos poros encravadas como pelos. Não me deixam dormir de tão ofertadas Fazem barulhos estranhos durante a noite, Como se fossem térmitas a roer-me despudoradas.
Sempre que olho para o lado vazio da minha cama, Há mulheres deitadas com palavras, quase térmitas roendo-me. Cada uma, um verso, um começo, uma prosa sem defeito. Cada uma um final impossível de ser escrito. Em cada uma um poema de alcova, insatisfeito mas dito.
E as que me olham desconfiadas, Acendem cigarros no meu beijo e descruzam as pernas ao texto, Como se eu tivesse merecido o direito à sorte, Afinal, a minha vida é um eterno feminino: - Palavra, escrita, desdita, morte. A minha vida um desassossegado sopro de menino.
Já amei muitas palavras, fiz amor com o desgosto. A quase todas despi os segredos, domestiquei os medos. Fui amigo, amante, marido. Fui guerreiro e tombei ferido. Sei que cada uma é uma só e o seu oposto. Um pecado original repetido.
E se sei isto… porque me roem afinal as térmitas os dedos?
José Torres (Direitos Registados)
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